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ABU GOSH, UMA ALDEIA DAS ARÁBIAS...


Vinha me prometendo visitar Abu Gosh já há duas viagens atrás e, por um motivo ou outro não deu. Pois bem, desta última vez deu. Fui visitar a “capital mundial do Hummus” e suas surreais histórias. A elas pois :

Esta pequena aldeia árabe de 7.500 habitantes, localizada a 10 km de Jerusalém é provavelmente local de uma das mais antigas povoações da região. Escavações e estudos mostram presença humana no local 7.000 anos A.C.

Seu antigo nome árabe Qaryat al Inab lembra uma tese de alguns estudiosos que aqui teria sido a aldeia bíblica de Kyriat Ye’arim, local onde o rei David teria escondido a Arca por 20 anos antes de leva-la a Jerusalém (1 Crônicas, 13, 5-8). Mais recentemente foi criada uma cidade de Kyriat Ye’arim nas vizinhanças, com população basicamente Haredim (em torno de 4.000 pessoas)

No início do séc. XVI, uma família de circassianos, de nome Abu Gosh estabeleceu-se na região e floresceu a ponto de ocupar vastas áreas e controlar a economia local

No séc. XVIII, numa disputa com aldeias vizinhas, houve um verdadeiro massacre e toda família morreu, com exceção de uma mulher e um bebe menino. A partir deste menino a família renasceu e já no início do séc. XIX, não só novamente controlava toda região como tinha obtido um firman (um decreto, ou uma licença) do sultão turco que lhes garantia o direito de cobrar um pedágio dos peregrinos que se encaminhavam a Jerusalém e aí, inicia-se a tradição da comida. Tendo os peregrinos de parar no local para o pagamento e , estando às portas de Jerusalém, acabavam ou por pernoitar ou por fazer uma refeição antes da “puxada” final até a cidade santa e, o Hummus virou a sensação e a comida símbolo da aldeia.

Mas antes de seguirmos com o Hummus, vale a pena contar algumas peculiaridades do local

Dentre as mais de 30 aldeias árabes da região, Abu Gosh foi a única que , abertamente, sempre foi pró-sionista. Na guerra da Independência, o Palmach tinha livre acesso a aldeia e conseguiu, muitas vezes chegar a Jerusalém graças a isto

O primeiro kibutz das colinas da Judeia, Kiryat Anavim, foi fundado em 1912 em terras vendidas pela família Abu Gosh aos colonos

Desde 1997, o Sr Jaaber Hussein, dono de um hotel em Abu Gosh, por um acordo feito com o rabinato, toda véspera de Pesach, faz um depósito caução de US$ 5.000,00 que o habilita a adquirir em comodato todo o Chametz das instituições públicas de Israel no valor estimado de US$ 150 milhões. Findo o Pesach , o depósito lhe é restituído e a posse do Chametz volta a seus antigos donos

Em 1993, o jovem Jawdat Ibrahim volta de Chicago, onde foi estudar por seis anos , com míseros US$ 22 milhões que ganhou na Loteria de Illinois . Estabelece uma fundação em Abu Gosh para fornecer bolsas de estudo a árabes e judeus, na mesma proporção, nas melhores escolas e universidades do país. Abre um restaurante, o Mis’Adat Abu Gosh, que se tornou um marco de encontros entre palestinos e judeus. Comenta-se, a boca pequena na vila, que na década de 90, Shimon Perez e Faisal Husseini tiveram uma série de encontros secretos no restaurante de Jawdat. O restaurante também é conhecido por suas iniciativas peculiares: Quem entregar o celular na entrada tem 50% de desconto. Em Copas, Olimpíadas e outras eventos importantes, uma grande tenda é armada ao lado do restaurante com telões e a população é convidada a assisti-lo. Além , é claro, da excelente qualidade de seu hummus.


E aí entramos na questão da guerra do hummus de Abu Gosh: por muitos anos, o restaurante Abu Shukri era considerado o melhor hummus da cidade e de Israel. Pois um belo dia, do ouro lado da rua, abre um novo Abu Shukri, com um letreiro dizendo: Mudamos. Este é o verdadeiro Abu Shukri.

Tratava-se do genro do dono do restaurante original que resolveu ter carreira solo.

A resposta foi imediata: No dia seguinte, uma placa maior ainda no restaurante original dizia: Não Mudamos! Aqui continua sendo o Original Abu Shukri

E a batalha seguiu por quase 2 anos até que as partes resolveram reunir forças

O que pouca gente sabe é que o original Abu Shukri não esta mais em Abu Gosh. No início do séc. XX, com o falecimento do fundador do restaurante um sobrinho pegou receitas, cozinheiros e equipamentos e abriu um Abu Shukri na cidade velha de Jerusalém, na Al Wad Road, entre a V e a VI paradas da Via Dolorosa. O restaurante já mudou de dono algumas vezes desde então mas, teoricamente, é o original

Bom, estivemos no Mis’Adat Abu Gosh e no Lebanese Hummus , cada um deles nos servindo 6 tipos de Hummus e uma quantidade indescritível de Mezzé

Tenho de lhes dizer que o Abu Shukri de Jerusalém , apesar de estar com um atendimento muito ruim e ter diminuído consideravelmente sua quantidade de mezzé, continua sendo o melhor hummus . Viva a tradição !

Mas Abu Gosh não é só hummus. O Monastério dos Beneditinos, antiga Igreja dos Cruzados, é o mais bem preservado edifício das época das Cruzadas no país

A igreja de Notre Dame de l'Arche d'Alliance data de 1924 e supostamente foi construída onde ficava a casa de Abinadab, local onde a Arca teria ficado escondida

A mesquita Akhmad Kadyrov, construída por doação do governo da Chechênia e inaugurada em 2014, é a maior de Israel e belíssima

Não bastasse tudo isto, o restaurante Elvis Inn, tem ao seu redor duas gigantescas estatuas do rei, uma delas, toda dourada, a maior estatua de Elvis do Oriente


É ou não é uma aldeia das Arábias?

Para que não fiquem na vontade , uma receitinha do Hummus do Lebanese:


500 g de grão de bico

1 cebola descascada

3 dentes de alho descascados

4 dentes de alho esmagados

1 pitada de bicarbonato de sódio

sal à gosto

1/3 de xícara de tahina

3 col. sopa de suco de limão

Deixe o grão de bico de molho por 12 horas, trocando a água tantas vezes quanto possível.

Escorra o grão de bico e coloque numa panela com a cebola e o alho descascado.

Cozinhe até o grão de bico ficar bem mole, soltando a casca (vá escumando a espuma que se forma).

Escorra (reserve um pouco da água do cozimento) e retire a cebola e o alho. Verifique se as cascas soltaram-se do grão de bico, retirando as que não soltaram.

Numa tigela, vá esmagando o grão de bico (reserve alguns inteiros para decorar), transformando-o num purê (utilizar o processador ou o liquidificador não resultará na mesma consistência).

Coloque então a tahina , o alho esmagado, a pimenta e o suco de limão. Tempere com sal e mexa para misturar. Se estiver muito grosso, coloque um pouco da água do cozimento (pouco, bem pouco).


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